quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Imagine que o céu não existe

Vou postar esse texto aqui, que foi passado pelo nosso professor querrido, numa aula da EBD já há algum tempo. Achei interessante o texto e guardei ele aq no PC, e aqui tem ficado até que hoje encontrei o caminho pra ele: o nosso blog.

“Imagine que o céu não existe

Os antropólogos relatam, não sem certo embaraço, que todas as sociedades humanas já descobertas apresentam uma crença na vida após a morte. Os especialistas em religião - em especial aqueles que atendem pelo nome pomposo de ‘fenomenologistas’- agarram-se a esse fato,porque vêem na persistência teimosa desse crença um ‘rumor de transcendência’,um vestígio da nossa natureza imortal.

Ler sobre a crença quase universal na existência de uma vida após esta aqui levou meus pensamentos em uma direção totalmente oposta. Passei a imaginar uma sociedade que não acreditasse na vida após a morte. Como a negação da imortalidade afetaria a vida cotidiana?

Deixei minha mente correr solta e cheguei ás conclusões que apresento a seguir. Para dar um rótulo conveniente (e com meu pedido de desculpas a Samuel Butler, autor de Erehwon), darei à minha sociedade mítica o nome de Acirema.

1. Os aciremos valorizam a juventude acima de qualquer outra coisa. Já que para eles não existe nada além da vida na terra, a juventude representa esperança. Não tem um futuro melhor pelo qual ansiar. Como resultado, preservar a ilusão da juventude é bem aceito. O esporte é uma obsessão nacional. As capas de revistas apresentam rostos sem rugas e corpos lindos. Os livros e fitas de vídeo apresentam mulheres atraentes,de aproximadamente 40 anos,demonstrando exercícios que, seguidos fielmente, farão com que a pessoa pareça dez anos mais jovem.

2. Naturalmente o povo de Acirema não valoriza os idosos, porque eles se constituem numa lembrança desagradável do final da vida. Ao contrário dos jovens, eles jamais podem representar esperança. Assim,a indústria da saúde de Acirema promove cremes para pele, solução para careca, cirurgias plásticas e muitos outros meios elaborados para mascarar os efeitos do envelhecimento, o prelúdio da morte. Em regiões especialmente insensíveis,os aciremos chegam a confinar os idosos em abrigos, isolando-os da população em geral.

3. Em Acirema valoriza-se mais a imagem do que a substância. Práticas como dietas, exercícios e construção do corpo, por exemplo, atingiram o status de ritos pagãos de adoração. Um corpo bem construído demonstra visivelmente as conquistas neste mundo,enquanto que qualidades interiores nebulosas - compaixão, abnegação e humildade - merecem poucos elogios. Como efeito colateral deprimente, uma pessoa com deficiências, ou desfigurada, tem grande dificuldade para conseguir competir, apesar das qualidades dos seu caráter.

4. A religião de Acirema focaliza exclusivamente como perambular aqui e agora, porque não existe qualquer sistema de recompensa após a morte. Os que ainda acreditam em uma deidade buscam a aprovação de deus em termos de boa saúde e prosperidade na terra. Houve um tempo em que os pastores perseguiam o que chamavam de evangelismo, mas hoje devotam a maior parte de sua energia a aumentar o bem-estar dos seus concidadãos.

5. Recentemente, os crimes tornaram-se mais violentos e bizarros. Em outras cidades primitivas os cidadãos crescem com um vago temor de um julgamento eterno pendendo sobre eles, mas os aciremos não impõem esses limites a seu comportamento maligno.

6.Gastam bilhões de dólares para manter corpos idosos presos a sistemas de prolongamento da vida, enquanto que, ao mesmo tempo, permitem e até encorajam o aborto. Essa atitude não é tão paradoxal como parece, porque os aciremos acreditam que a vida humana começa no nascimento e termina na morte.

7.Até bem recentemente os psicólogos de Acirema precisavam tratar das reações atávicas de seus pacientes: medo e raiva frente à morte. Novas técnicas, porém, trouxeram promessas na superação desses instintos primitvos. Hoje as pessoas aprendem a ver a “aceitação” como a reação mais madura ao estado perfeitamente natural da morte. OS estudiosos obtiveram sucesso na desvalorização de atitudes ultrapassadas sobre morrer de maneira “nobre”. Para os aciremos a morte ideal acontece em paz durante o sono.

8. Os cientistas de Acirema ainda trabalham para eliminar o problema da morte. Enquanto isso a maior parte das mortes acontece na presença de profissionais treinados, em uma área isolada. Para diminuir choque,a palavra “morte”, tão deselegante, foi substituída por eufemismo com “passamento” e “descanso”. E todas as cerimônias que acompanham a morte demonstram sua separação da vida. Os corpos são preservados quimicamente e colocados em recipientes herméticos, a prova de vazamentos.


Só de pensar em uma sociedade assim sinto calafrios. Certamente sou feliz de viver no meu bom e velho país, onde, de acordo com as pesquisas do instituto Gallup, a grande maioria da população acredita na vida após a morte.

YANCEY,Philip.Perguntas que precisam de respostas.Rio de janeiro: Textus.2001”



Isso não parece familiar??

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