domingo, 17 de fevereiro de 2008

CARTA DA MISERICÓRDIA

"Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se a cada manhã; grande é a sua fidelidade" (Jeremias, em Lamentações 3. 22 e 23).


Quando o apóstolo Paulo escreveu aos Gálatas, ele ficou impressionado sobre quão facilmente eles estavam sucumbindo à tentação da auto-justiça, ou seja, pensarem que Deus lhes devia algo por serem ou fazerem alguma coisa por Ele, de modo a que Deus ficasse lhes devendo algo.

Ontem foram tarde e noite muito difíceis para mim e quase caí nesta armadilha sutil e perigosa. Sofri muito com dores inenarráveis, pois o alimento não conseguia passar e tive alguns episódios de vômito. Naquelas horas senti Deus tão distante, e comecei a experimentar um tipo de autocomiseração. Fiquei me lembrando de tantas palavras boas que tenho ouvido sobre minha vida, meu ministério, pessoas me lembrando de quão importante fui em determinado momento da vida delas, de ações como pastor, de como tenho servido de exemplo em meio a este sofrimento, a maneira como tenho me portado, etc...

Enquanto sofria, me via quase que cobrando de Deus o alívio para aquele sofrimento ou a cura imediata, afinal ele curou tanta gente que nada fizera por ele e ali estava eu, seu servo, com uma boa folha de serviço, sofrendo. Não era justo. Ele tinha que fazer alguma coisa.

Durante a noite, já sem a dor, comecei a orar e Deus parecia tão distante. Não sei se pude entender exatamente as palavras de Jesus na cruz: "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste"..., mas passou perto!!! Parecia que eu falava para as paredes. Lembrei-me do diálogo de Deus com Jó, quando diante da grandeza e da majestade de Deus, Jó decide simplesmente botar a mão sobre a boca e não falar mais nada.

Decidi tomar a mesma decisão, que é muito sábia. Porém, mais do que me mostrar quem Ele é, Deus começou a mostrar quem eu era, e aí comecei a cair na real. Vi-me sentindo ciúmes de tantos colegas que estão com suas igrejas em retiro, estão voltando das férias para reiniciar os seus ministérios, ou estão começando um novo ministério cheio de planos e idéias. E ali estava eu numa cama, impotente, cheio de autocomiseração, auto-justiça, achando que era mesmo um exemplo, aceitando todas aquelas boas palavras sobre mim, quando na verdade eu tenho medos, dúvidas, questionamentos, pouca fé, ansiedade.

Até para escrever esta carta tenho medo de passar uma imagem de humildade que não existe. Foi quando me lembrei, e que boa lembrança, "que Deus provou o seu amor para comigo sendo eu ainda um PECADOR". É onde a vida cristã começa e continua. Deus decidiu me amar e continuar a me amar, a despeito de mim mesmo. Eu não sou mesmo exemplo de nada, mas um servo inútil, e por favor não desmintam a Bíblia, e saibam que isto se aplica a todos nós, mesmo aqueles que querem pensar diferente. Deus não reparte a glória dEle com ninguém. Se tenho conseguido "segurar" as pontas, é porque a graça e a misericórdia dEle se manifestam na minha fraqueza, em toda a plenitude da minha fraqueza, física, espiritual, moral, etc.

O apóstolo Paulo tem uma dimensão desta graça que me deixa sempre envergonhado. Sempre reconheceu que era o principal dos pecadores. E que tudo o que fazia e tinha, era somente devido à graça de Jesus. Sou grato a Deus pelo sofrimento e por esta tarde e noite que me têm feito enxergar isso, e que têm ajudado a me abandonar aos cuidados dEle. Foi difícil rasgar a minha folha de serviços prestados. Mas acredito que consegui fazê-lo. Agora não tenho nada para apresentar diante dEle, a não ser tão-somente os méritos de Seu Filho Jesus, por isso tenho dado a esta carta o título de Carta da Misericórdia.

Pr. Xavier – Igreja Batista Memorial da Tijuca, RJ, 1o. de fevereiro de 2008. [Rasgar a folha de serviços prestados é uma lição que não esqueceremos. ias]
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