quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A canção do bobo-alegre e a canção de quem se alegra

Há uma onda de animadores de auditório nos nossos dias. É o único nome que consigo dar a alguns que dirigem o período de louvor nas nossas igrejas por aí. Cada qual com seu estilo peculiar, fazem de tudo para promover uma festa. Pulam, dançam, cantam, gesticulam, pedem pro povo cantar mais alto, pedem pro povo ficar alegre, sorrir, pedem pra sair do lugar e abraçar o vizinho, ameaçam quem não está cantando de vir cantar sozinho na frente, choram, fazem caras e bocas, pintam e bordam. Só não me parecem saber muito bem o que fazem.’Fique de pé, meu irmão, sorria para quem está do seu lado e juntos vamos cantar, alegremente e com voz bem alta, o próximo hino’’

Esta é a casa do Senhor! Quando entramos na presença do Senhor, devemos sempre estar com alegria e fazendo festa’

São frases que eu e você já ouvímos. Mas será que elas trazem algum efeito? Eu creio que não! A mim, pelo menos, sempre provocam o efeito contrário. E digo mais: elas só nos levam a ensinar, ainda que inconscientemente, que somos e devemos ser um bando de bobos-alegres.

É... bobo-alegre mesmo. Não quero ofender ninguém, mas faço uma distinção, que julgo bíblica, entre o bobo-alegre e o que se alegra. O bobo-alegre é o que busca uma alegria meramente superficial, anestésica, passageira, artificial. Como alguém que, apesar de preocupado com alguma coisa, entra em uma sequencia de voltas de montanha-russa. A agitação, a adrenalina e a gritaria o fazem esquecer suas mazelas por um instante e usufruir de momentos de êxtase. Mas assim que a agitação para... tudo volta. E volta pior.

O que se alegra segue a recomendação bíblica. Paulo fala diversas vezes em suas cartas que devemos nos alegrar. Não fala em momento algum que devemos ser alegres o tempo todo, mas que devemos nos alegrar o tempo todo. Qual a diferença? Ora, quem precisa se alegrar a não ser quem não está alegre? Paulo pressupõe a possibilidade de não estarmos alegres o tempo todo, mas mostra o caminho para nos alegrarmos o tempo todo. Não impõe o estado, mas ensina o caminho. E diz que a alegria vem do Espírito. Alegrar-se, portanto, é um dos frutos obtidos quando estamos com Deus reinando sobre nós, de fato, de direito, no Espírito, na totalidade.

Todos vivemos, vez por outra, momentos de tristeza, de decepção, de desânimo, preocupação, ansiedade e até angústia. E o que resolve estes momentos? Dar uma de bobo-alegre, ou entrar no processo de alegrar-se de fato?Você convidaria uma jovem que acaba de sair do enterro de sua mãe para que lhe acompanhe a um parque de diversões e ande de montanha-russa? Não? Por que então os nossos animadores de auditório vão aos ouvidos de aflitos e angustiados dizer que eles devem fazer cara de alegres para cantar canções? Eu o convido a visitar comigo algumas cenas.

Primeiro passamos pela Igreja da Festa. A música é boa, banda completa e orquestra. Gente dançando e cantando. E lá na frente o animador de auditório vai lançando suas palavras de ordem. ‘Você está na casa de Deus! Ele quer você alegre! Sorria! Pule! Cante! Dance!’

Coisa de bobo-alegre... Ora, não estamos sempre na presença de Deus? A casa de Deus não somos nós, os salvos, que somos a morada do Espírito? Que história é essa de ‘agora estamos na casa de Deus’? Quem ‘re-costurou’ o véu e devolveu Deus à câmara do Santo-dos-Santos?

Mas visitemos a cena imaginária de Davi compondo e cantando alguns de seus salmos. Nós o vemos compondo salmos quando ele está alegre (8, 9, 19, 23, 24, 25, etc), quando ele está aflito (3, 5, 13, etc), quando ele está arrependido, indignado, preocupado, confiante, enfim, de muitas formas. Seus salmos revelam um pouco de sua personalidade mas, acima de tudo, nos ensinam como Deus é Deus em todos os nossos momentos. Quer o nosso louvor e a nossa expressão em todos os nossos momentos, qualquer que seja o nosso estado de espírito. Davi entendia bem isso.

Coisa de quem se alegra. Mesmo – e principalmente - quando está triste. Mas veja agora comigo o website de uma igreja brasileira. Lá nós lemos, já na 1ª página: ‘é uma coisa terrível apresentar-se a Deus triste e mal-humorado’. Desde quando? Não é pra lançarmos as nossas ansiedades sobre Ele? Não é para fazermos conhecidas de Deus as nossas preocupações, em súplicas e ações de graça? Podemos e devemos também louva-lo com nossos pedidos, com a declaração de nossa dependência Dele.

Sair pregando que vida cristã é só alegria, e dizer que é terrível chegar diante de Deus triste, é coisa realmente de bobo-alegre.

Em contra-partida, vamos visitar a cena onde Jeremias escreve suas lamentações. Ele vê a derrocada de seu povo, escravidão, miséria, desgraça sobre desgraça. A viola definitivamente em cacos. E ele diz que vê tudo isso, que reconhece que a coisa está ruim, mas decide lembrar-se daquilo que lhe pode dar esperança, pois as misericóridas do nosso Deus se renovam a cada manhã. Que apesar de suas posses, seus bens, seu povo estarem se perdendo, nós o vemos declarar que ‘a minha porção é o Senhor, portanto nele eu vou colocar minha esperança’

Coisa de bobo-alegre? Não! Coisa de quem sente a tristeza, mas se alegra em Deus.

Que saibamos buscar e viver de forma verdadeira, não superficial, saindo do show e entrando na vida. Que aprendamos a nos alegrar quando precisamos, e que aprendamos a viver, cada dia mais, contentes em toda e qualquer situação.

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Aqui transcrevo a letra de uma canção recém-terminada. Ela trata desse assunto, e é entitulada ‘Diário de Bordo’

Chega que falem, que pensem, que digam que sou ou que fui o que nunca serei
Chega de histórias que cantam vitórias vãos caricatos retratos de alguém
Basta às canções que me custam fingir
Dá-me o que venha de mim
Que a minha canção mostre sempre quem sou mesmo que mostre o que tento esconder

Que seja o retrato da transformação que vejo Tua mão sempre em mim promover
Que a minha canção só registre onde estou mesmo que longe ainda esteja do lar
que indique o exato, sem viés posição onde anda o barco e o que falta a chegar

Chega de frases, de rezas perdidas repetições que não mudam ninguém
Basta às bravatas, decretos, medidas só alusões a um deus que é refém
Venham canções que te mostrem Senhor e que elas brotem de mim

Que a minha canção mostre sempre quem sou mesmo que mostre o que tento esconder
Que seja o retrato da transformação que vejo Tua mão sempre em mim promover
Que a minha canção só registre onde estou mesmo que longe ainda esteja do lar
que indique o exato, sem viés posição onde anda o barco e o que falta a chegar

Este é o julgamento: a luz veio ao mundo mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras era más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se veja claramente que as suas obras são realizadas por intermédio de Deus
João 3: 19-21

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